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Os irmãos
Hélder e Ronald Câmara |
A
Defesa
Câmara
(1 e4 e5 2 Cf3 De7!?) tem
sua
origem
entre
os
anos
de 1952 e 1953, aparecendo
oficialmente
em
1954,
durante
o
Torneio
Nacional
Comemorativo do IV
Centenário
da
Cidade
de
São
Paulo (out/1954) e o XXII
Campeonato
Brasileiro
de
Xadrez
de 1954 (nov-dez/1954), realizados
em
São
Paulo. Naquelas
ocasiões,
em
três
partidas,
consegui uns
injustos
50% de
aproveitamento,
quando
na
realidade
devia
ter
ganho
a
primeira
delas e perdido as outras duas.
Desde
a
época
em
que
conseguira
reproduzir
as
partidas
da
revista
soviética
Sharmaty Bulletin, guardadas
em
casa
pelo
meu
pai,
isso
por
volta
de 1947,
eu
me
dexei
fascinar
por
uma
defesa
que
a
partir
de
então
adotava
em
qualquer
oportunidade:
a
Índia
do
Rei. |
Os
meus
parceiros
naqueles
tempos
do
antigo
Centro
Enxadrístico do
Clube
dos
Diários,
em
Fortaleza
(Ceará), sabiam da
minha
idolatria
por
essa
defesa
e,
assim,
por
esperteza
ou
pirraça,
só
começavam
suas
partidas
contra
mim
com
1 e4.
Aos
poucos,
porém,
fui-me apercebendo de
que
a
Índia
do
Rei
não
era
uma
defesa
subordinada
a
regras
ortodoxas, obedecendo à imperiosidade de
lances
ordeiros
e
precisos,
mas
um
maleável
esquema
defensivo.
E observei
também
que
a
sua
formação
estrutural podia
ser
concluída
independentemente
da
linha
de
jogo
adotada pelas brancas.
Na
India do
Rei,
estabelecida a
sua
formação
básica
(...Cf6, g6, Bg7, d6, 0-0, e5, Cbd7, c6), as pretas
devem
eleger
um
plano
de
jogo.
Elas
podem
pressionar
o
centro
com
9...exd4 e 10...Te8;
podem
garantir
a
casa
c5
para o
seu
cavalo
de d7
com
9...a5;
ou
podem
manter a
tensão
central
com
9...Dc7
ou
9...De7 (!). E é
exatamente
aí
que
nasce a
Defesa
Câmara:
uma
inversão
de
nove
lances
capaz
de
garantir,
com
um
quase
imperceptível
disfarce,
o
emprego
do
esquema
índio
contra
a
abertura
peão-rei.
O detalhe
insólito da minha defesa é que ela, além de oferecer um meio
de jogar a Índia do Rei contra 1 e4, ainda proporciona
um verdadeiro impacto ao contrariar os mais elementares
princípios da teoria das aberturas: a dama, desenvolvida
prematuramente para defender um simples peão, não apenas se
expõe a eventuais ataques de peças menores, como impede a
saída natural do bispo de f8.
Outro
detalhe
importante:
um
jogador
que
não
conheça
esse
esquema
defensivo,
ao
defrontar
com
alguém
que
o empregue,
por
certo
imaginar-se-á
diante
de
um
neófito.
E
fatalmente
não
se comportará
com
a
necessária
determinação,
como
faria
contra
um
adversário
de
presumida
força
média
ou
superior.
Com
relação
a
datas,
o
ano
de 1953 é
fundamental
no
comportamento
técnico
da India do
Rei.
Embora
existissem os
antecedentes
das
partidas
Taimanov-Aronin (1-0 in 40) e Taimanov-Bronstein (1-0 in 41),
ambas do 20º
Campeonato
da URSS, Moscou 1952, foi
somente
após a
famosa
partida
Najdorf-Gligoric,
Mar
Del Plata, 1953 (0-1 in 48),
que
a
novidade
teórica
7...Cc6 (1 d4 Cf6 2 c4 g6 3 Cc3 Bg7 4 e4 d6 5 Cf3 0-0 6 Be2
e5 7 0-0 Cc6! N) adquiriu
um
enorme
e
definitivo
destaque
internacional
e passou a
ser
considerada
como
a
melhor
continuação
nesta
linha,
razão
pela
qual
os “indianistas”
em
sua
quase
totalidade
deixaram de
adotar o
superclássico 7...Cbd7.
Por
isso,
deve-se
estabelecer
a
idéia
norteadora da
Defesa
Câmara
como
anterior
a 1953!
No
histórico
de
seu
opúsculo
monográfico
sobre
a
Defesa
Brasileira,
editado
em
1969,
logo
nas primeiras
linhas,
o
autor
Washington de
Oliveira
escreveu: “O
lance
2...De7 foi sugerido,
em
1954,
pelo
atual
vice-campeão
brasileiro
Hélder
Câmara
quando,
na Guanabara, analisava
partidas
com
Almeida
Soares,
Sílvio Mendes, Nilo
Coelho
e
outros”.
A
redação
desse
histórico,
porém,
devia
ser
inteiramente
outra,
ou
seja, “o
lance
2...De7 foi mostrado
em
1954
pelo
atual
vice-campeão
brasileiro
Hélder
Câmara
quando,
no
Distrito
Federal
de
então,
reproduzia as
partidas
jogadas
por
ele
contra
Manoel
Madeira
de Ley (½-½), José Thiago Mangini (1-0) e Waldemar Santacruz
de
Oliveira
(0-1),
em
competições realizadas
em
São
Paulo, de
onde
acabara de
chegar”.
De
fato,
quando
pela
primeira
vez
eu
vim
para o
sul do
País
(1954), vim
com
a
finalidade
única
de
participar
do
Torneio
Nacional
Comemorativo do IV
Centenário
da
Cidade
de
São
Paulo. A
minha
defesa
deveria
servir
como
um
marco
enxadrístico
para
aquela
data
memorável.
Circunstancialmente,
um
mês
depois
desse
torneio
comemorativo, joguei
também
o XXII
Campeonato
Brasileiro,
quando
experimentei
por
duas
vezes
mais
o
meu
sistema
defensivo.
Na
volta,
sim,
aproveitando o
convite
dos
meus
parentes
no
Rio de
Janeiro,
ali
demorei-me uns
três
meses
antes
de
regressar
para
Fortaleza
em
princípios
de 1955. E
só
voltei
para o
sul
definitivamente
em
1957.
Em
1957,
agora
radicado no
Rio de
Janeiro,
passei a
freqüentar
o
maior
centro
de
xadrez
do
País
naquele
tempo,
o Olympico Club. Nas
minhas
primeiras
semanas
cariocas,
com
a
sofreguidão
própria
dos
meus
20
anos
de
idade,
passava
tardes
e
até
noites
inteiras
em
alucinantes
sessões
de
xadrez
relâmpago
(partidas
de 5
minutos).
No
meu
repertório
teórico,
entre
violentos
gambitos e
variantes
inusuais
ou
desconhecidas, estava, é
claro,
a
Defesa
Câmara,
utilizada
por
mim
à
exaustão.
Mas
logo
não
faltou
que
se apressasse na
dolorosa
observação:
--
Olhem,
ele
também
conhece a
Defesa
Brasileira!
Naquele
exato
momento,
como
se
um
raio
atravessasse a
minha
mente,
compreendi
que
se haviam aproveitado da
minha
ingenuidade
para a
vaidosa
satisfação
pessoal
de
alguns
que
jamais
pensaram
em
me
ver de
volta
reclamando os
frutos
da
minha
inspiração.
Mas
o
nome
de
Defesa
Brasileira
já
contava
com
o
aval
dos desinformados e
com
a
minha
desesperada e impotente
indignação.
Naquela
época,
em
termos
de
xadrez,
eu
ainda
não
obtivera
nenhum
título
relevante
e,
assim,
a
minha
voz
não
era
bastante
forte
para
reclamar
daquela esbulhação.
Em
1958, tornei-me
campeão
carioca.
Desde
então,
as
pessoas
que
conheciam a
verdade
histórica
desse
meu
esquema
defensivo
passaram a chamá-lo de
Defesa
HC,
como
era
originariamente
conhecido.
Depois,
porém,
em
homenagem
ao
nome
da
única
família
que
revelou
dois
irmãos
(Ronald e Hélder)
campeões
brasileiros
de
xadrez,
aliás,
bi-campeões, passei a denominá-la de
Defesa
Câmara –
que
é o
nome
pelo
qual
ele
deverá
ser
conhecida
na
posteridade.
Com
relação
à
sua
prática,
devo
registrar
que
eu
a empreguei
inclusive
para
obter o
meu
título
de
Mestre
Internacional,
no
Sul-Americano
de 1972,
em
São
Paulo, e na
minha
única
participação
individual
fora
do
Continente
Sul-Americano,
em
1973, no
Magistral
de Nethanya,
em
Israel.
Isso
para
não
dizer
dos inúmeros
campeonatos
estaduais e
nacionais,
além
de outras
provas
de
menor
vulto,
embora
também
oficiais.
O
economista
Luís Nassif publicou
um
artigo
na
Folha
de S. Paulo (22.07.93) intitulado
“Os salários e a abertura brasileira”, relatando que “No
Interzonal de Xadrez de 1972, a maior inovação brasileira não
foi Mequinho. Foi um mestre internacional criativo e muito
louco (no tabuleiro) chamado Hélder Câmara, sobrinho do
arcebispo, que lançou oficialmente para o mundo a abertura
brasileira. Consistia em mover a dama no segundo lance – uma
heresia para os especialistas. Qual era o lance seguinte?
--
‘Não
me
perguntem,
porque
ainda
não
pensei’, respondia o
enxadrista”.
Com
isso,
Nassif estabelecia uma
correlação
entre
a
minha
temerária
e
heterodoxa
defesa
(que
ele
confundiu
com
abertura)
e
um
plano
econômico
do
governo
Itamar
Franco
de
reajuste
integral
de
salários
– indagando e ao
mesmo
tempo
duvidando “se
alguém
pensou no
lance
seguinte
e se tem
coragem
de
expor
a
sua
conclusão”.
Na
realidade,
não
posso
deixar
de
concordar
com
Nassif de
que
os
economistas
contratados
por
quase
todos
os
nossos
governos
vivem atrapalhados,
sem
conseguir
aliviar
as
aflições
do
povo
brasileiro.
Mas
com
uma ressalva:
eu
sempre
soube
muito
bem
que
lance
seguinte
devia
fazer na
minha
defesa.
Mercê
dos
inestimáveis
préstimos
do
amigo
Dr. Semi Ammar,
que
guardara
em
seus
preciosos
arquivos
não
apenas
os
boletins
do “Torneio
do IV
Centenário
da
Cidade
de
São
Paulo”,
mas
também
os do “XXII
Campeonato
Brasileiro
Individual
de
Xadrez”,
ambos
de 1954, podemos
recuperar
estas
raridades
históricas, as primeiras
partidas
da
Defesa
Câmara,
que,
desconhecida
àquela
época,
recebeu a
coerente
denominação
de
Defesa
Irregular...
1.
Manoel
Madeira
de Ley (SP) x (CE) Hélder
Câmara
(4ª rodada,
Torneio
do IV
Centenário
da
Cidade
de
São
Paulo, SP, 19.10.54 –
Defesa
Câmara,
C 40) 1 e4 e5 2 Cf3 De7!? N 3 Bc4 g6! 4 Cc3 c6 5 d3 Bg7
6 a4 Cf6 7 h3 0-0 8 Be3 Td8 9 Bg5 h6 10 Bxf6 Dxf6 11 0-0 d6 12
Dd2 Bxh3! 13 Ch2 Be6 14 Rh1 d5 15 Ba2 d4 16 Ce2 Bxa2 17 Txa2
De6 18 Taa1 c5 19 f4 f5?! 20 exf5 gxf5 21 fxe5 Bxe5 22 Cf4 Df6
23 Df2 Tf8 24 Tae1 Cc6 25 Df3 Tf7 26 Dd5 Td8 27 De6 Dxe6 28
Cxe6 Td5 29 Cf4 Bxf4 30 Txf4
Te5
31 Tdf1
Te2
32 T1f2 Txf2 33 Txf2 Ce5 34
Te2
Cg4 35 Cxg4 fxg4 36 Rh2 Rg7 37 Rg3, ½-½.
2. José Thiago Mangini (RJ) x (CE)
Hélder
Câmara
(4ª rodada, XXII Camp.
Brasileiro
de
Xadrez,
SP, 30.11.54 –
Defesa
Câmara,
C 40) 1 e4 e5 2 Cf3 De7!? 3 Bc4 g6 4 0-0 Bg7 5 d4 d6 6 dxe5
dxe5 7 b3 c6 8 Ba3 Df6 9 Cc3 Bg4 10 Be2 Bxf3 11 Bxf3 Ce7 12
De2 Cc8 13 Bg4 Cb6 14 Tad1 Bf8 15 Bc1 Bb4 16 Td3 0-0 17 f4
exf4? 18 e5 De7 19 Ce4 Cd5 20 Bxf4 Cxf4 21 Txf4 Td8? 22 Txd8+
Dxd8 23 Cf6+ Rg7 24 Txb4, 1-0.
3. Waldemar Santacruz de
Oliveira
(PE) x (CE) Hélder
Câmara
(9ª rodada, XXII Camp.
Brasileiro
de
Xadrez,
SP, 06.12.54 –
Defesa
Câmara,
C 40) 1 e4 e5 2 Cf3 De7 3 b3 d6 4 Cc3 c6 5 Be2 g6 6 d3 Bg7 7
Bg5 Cf6 8 h3 Cbd7 9 Dd2 h6 10 Be3 d5 11 exd5 cxd5 12 d4 e4 13
Ch2 a6 14 0-0 Cb6 15 f3 Ch5? 16 fxe4 Cg3 17 Cxd5 Cxd5 18 exd5
Cxf1 19 Txf1 0-0 20 Bd3 g5 21 c4 f5 22 c5 f4 23 Bf2 h5 24 Bc4
Df6 25 Td1 g4 26 hxg4 Bxg4 27
Te1
Tae8 28 Txe8 Txe8 29 a4 f3 30 g3 Rh8 31 Cxg4 hxg4 32 d6 Df7 33
d5 Db1+ 34 Bf1 Dg6 35 Db4 Df5 36 Dxb7 Dc2 37 d7? Dxf2+!, 0-1.
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Crônicas
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Xadrez
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1996).
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